Publicado no Brasil em 2009 pela Cia. das letras, esta obra do quadrinhista Norte-Americano Chris Ware(criador de “Rusty Brown”, “Quimby the mouse”, entre outros) é uma das mais importantes da história dos quadrinhos.
A edição brasileira é de uma qualidade muito alta, fiel à todas as vontades do autor. Desde o começo, na contra-capa em letras minúsculas que ironizam o meio dos quadrinhos e sua industria, até o fim, uma espécie de glossário bem-humorado. Mas, à história:
Um homem chamado Jimmy Corrigan,ainda hoje reprimido pela mãe, timido e com dificuldades de contato social com outras pessoas, recebe uma carta do pai que nunca conheceu. Um encontro é marcado, e Jimmy viaja para a cidade de seu pai para conhecê-lo.
A premissa pode parecer comum, mas embora simples, seria um erro considera-lá banal. Primeiro porque Chris Ware, o autor, baseou a história em sua experiência. O próprio quadrinhista passou pela situação de conhecer seu pai apenas depois de adulto. Segundo, o motivo principal, porque Ware conta a história muito bem.
Em termos diretos, a viagem e todas as situações pelas quais o protagonista passa quando conhece seu pai poderiam ser descritas por uma palavra: desconforto. Jimmy simplesmente não sabe como lidar com outras pessoas, e todas as suas frustrações acabam dando vazão a uma série de devaneios,que mesclados a trama que o leitor acompanha deixam os acontecimentos ainda mais estranhos. Os momentos que o personagem passa com seu pai são angustiantes; e não há nada de estranho se o próprio leitor sentir vontade de empurrar Jimmy e quebrar aquele silêncio incômodo. Enquanto isso, conhecemos também a vida do avô de Jimmy, que possui o mesmo nome- não à toa, a vida do avô e a do neto são cheias de similaridades.
Entretanto, o que torna este livro um dos mais importantes da história dos quadrinhos é justamente a narrativa empregada por Ware. O autor tem todo o cuidado para maximizar as sensações que permeiam a trama, e faz isso através de recursos gráficos que não seriam possíveis no cinema ou mesmo na literatura em prosa. Algumas páginas possuem um enorme número de quadrinhos realmente pequenos, enquanto algumas possuem apenas um quadrinho- o recurso de usar uma página inteira para destacar uma parte da história não é banalizado aqui, como em algumas obras. Momentos marcantes explodem em diagramas, modelos de montar do tipo “recorte e dobre” , e outras representações que acrescentam significado à trama e ajudam o leitor a entender melhor a história. O traço de Ware é simples, quase um adepto da linha clara de Hergé, o que também presta serviço a narrativa. Se a jornada já é apresentada em tantos niveis, alguns até subjetivos, os desenhos funcionam como elemento esclarecedor, evitando outras complicações que não sejam causadas pelas reflexões do próprio leitor. Entretanto, os personagens estão graficamente muito bem caracterizados. É impressionante como o Jimmy adulto mantém a cara de bebê assustado, ajudando no entendimento de suas emoções.
Toda essa precisão está colocada no livro, e reforça as principais caracteristícas desta linguagem. Ware negocia o ritmo da narrativa da obra: a leitura de “o menino mais esperto do mundo” demanda um tempo que está aberto ao do leitor, cabendo a este absorvê-la e compreendê-lá sem pressa, a partir dos elementos eternizados no papel. Por isso, talvez não seja uma obra indicada para aqueles que não estão acostumados aos recursos do meio, que podem considerar o livro cansativo.
Mas sem dúvida, pela excelência apresentada, merece seu lugar como um marco das hqs.